Em relações internacionais, acesso é poder. E poucos episódios recentes mostraram isso de forma tão explícita quanto a revelação de que Luiz Inácio Lula da Silva precisou recorrer ao celular do empresário Joesley Batista para destravar uma reunião com Donald Trump na Casa Branca. O episódio, por si só, já é simbólico. Não apenas pela informalidade da cena, mas pelo que ela sugere sobre o atual estágio da interlocução diplomática brasileira com Washington. Quando empresários passam a operar como canais paralelos entre governos, normalmente isso indica que os canais institucionais não estão funcionando com a fluidez necessária. Segundo fontes recentes, Lula vinha encontrando dificuldades para confirmar uma agenda com Trump desde o início do ano. A aproximação acabou acontecendo fora dos ritos tradicionais da diplomacia, sem Itamaraty, sem assessores internacionais e sem os mecanismos formais que normalmente sustentam relações entre chefes de Estado. O dado mais relevante não é o fato de Joesley Batista possuir acesso direto ao presidente americano. Grandes empresários globais frequentemente constroem redes de influência próprias, especialmente em economias fortemente conectadas ao poder político, como os Estados Unidos. O ponto central é outro: por que o governo brasileiro precisou depender dessa ponte informal? A resposta passa, inevitavelmente, pela deterioração da capacidade de interlocução estratégica da política externa brasileira nos últimos anos. Desde o retorno de Lula ao poder, o Itamaraty tem enfrentado dificuldades crescentes para equilibrar pragmatismo econômico e posicionamentos ideológicos. Em diversos momentos, o governo brasileiro assumiu posturas ambíguas ou excessivamente personalistas em temas sensíveis da política internacional, especialmente em relação aos Estados Unidos, à guerra na Ucrânia, ao Oriente Médio e à aproximação com regimes autoritários.
Isso não significa ausência de diálogo entre Brasília e Washington. Os dois países continuam profundamente conectados economicamente, diplomaticamente e institucionalmente. Mas significa algo talvez mais importante: perda de densidade política na relação.
E essa perda tem consequências práticas.
Os Estados Unidos continuam sendo um parceiro central para investimentos, tecnologia, segurança, comércio e acesso a mercados. Em um momento em que cadeias globais estão sendo reorganizadas e a disputa entre Washington e Pequim redefine prioridades estratégicas, ter acesso direto, constante e confiável à Casa Branca deixou de ser um ativo protocolar. Tornou-se uma necessidade econômica.
É justamente nesse vazio que empresários passam a ocupar espaço.
Não é coincidência que figuras empresariais cada vez mais atuem como facilitadoras políticas internacionais. Em um mundo fragmentado, relações pessoais, influência corporativa e capacidade de acesso passaram a ter peso crescente nas negociações globais. Empresas multinacionais frequentemente possuem mais canais de comunicação direta com governos estrangeiros do que muitos Estados médios.
O problema começa quando esses canais privados deixam de complementar a diplomacia oficial e passam a substituí-la.
O episódio envolvendo Lula, Trump e Joesley Batista escancara exatamente isso: a percepção de que a interlocução institucional brasileira perdeu eficiência no relacionamento com a principal potência do planeta.
No curto prazo, a reunião ocorreu. Lula conseguiu a foto, o encontro prolongado e a promessa de continuidade das negociações comerciais. Mas o episódio deixa uma pergunta incômoda para Brasília: o que acontece quando um país precisa recorrer a empresários para abrir portas que sua própria diplomacia já conseguiu acessar com naturalidade no passado? Mais do que um bastidor curioso, o caso é um retrato da nova geopolítica do poder: uma geopolítica em que influência, acesso e redes pessoais se tornaram ativos estratégicos tão importantes quanto embaixadas, discursos e protocolos.
Palavras-chavediscursos e protocolos.





