Em fevereiro deste ano, a Receita Federal publicou sua Política de Inteligência Artificial, formalizando o uso da tecnologia em atividades de análise de dados, gestão de riscos e fiscalização tributária. A medida reforça uma transformação que já vinha ocorrendo nos bastidores da administração tributária, o monitoramento automatizado de informações fiscais, contábeis e financeiras em escala cada vez maior.Para André Fantoni, especialista em ICMS e Reforma Tributária, estrategista tributário, professor e CEO da Fantoni Assessoria Tributária, a nova realidade exige uma mudança de postura por parte das empresas. Segundo ele, a capacidade de cruzamento de dados do Fisco evoluiu a um ponto em que falhas operacionais antes consideradas pequenas podem rapidamente se transformar em passivos tributários relevantes na Receita Federal. “A fiscalização por inteligência artificial mudou completamente a dinâmica entre contribuinte e Fisco. Hoje, sistemas automatizados conseguem identificar inconsistências em volumes gigantescos de informações em questão de segundos. Isso reduz significativamente a margem para erros e aumenta a necessidade de controles internos mais eficientes”, afirma.Dados divulgados pela Receita Federal em abril mostram que as autuações fiscais realizadas em empresas alcançaram R$233 bilhões em 2025. O planejamento apresentado para 2026 prevê ampliação das ações de gestão de risco, fortalecimento dos mecanismos de conformidade tributária e uso crescente de ferramentas tecnológicas para identificação de divergências fiscais.
Erros operacionais passaram a ser detectados com mais rapidez
Embora o debate sobre fiscalização digital normalmente esteja associado ao combate à fraude, especialistas observam que grande parte dos problemas identificados atualmente tem origem em falhas operacionais do dia a dia das empresas.Informações divergentes entre declarações, erros de classificação tributária, inconsistências em documentos fiscais eletrônicos e falhas de parametrização de sistemas estão entre os pontos mais frequentemente detectados pelos mecanismos de cruzamento de dados utilizados pelos órgãos fiscalizadores. “O risco não está apenas em quem tenta descumprir a legislação. Muitas autuações surgem porque a empresa não possui processos adequados para validar informações que são transmitidas diariamente ao Fisco. Quando esses dados são analisados por inteligência artificial, qualquer inconsistência passa a ser identificada com muito mais facilidade”, explica o especialista.
Segundo Fantoni, a velocidade também mudou. Se anteriormente determinadas divergências poderiam permanecer sem questionamentos por longos períodos, hoje o intervalo entre a ocorrência da inconsistência e sua identificação tende a ser cada vez menor.“A fiscalização deixou de ser predominantemente reativa para se tornar preventiva e contínua. O cruzamento de dados acontece de forma permanente. Isso exige uma estrutura de governança tributária muito mais robusta do que a que muitas empresas possuem atualmente.”
Reforma Tributária deve ampliar exigência por conformidade
O avanço da fiscalização digital ocorre paralelamente à implementação da Reforma Tributária, que exigirá adaptação de sistemas, revisão de processos e adequação das rotinas fiscais das empresas ao longo dos próximos anos.
Na avaliação do profissional, a combinação entre novas regras tributárias e fiscalização baseada em inteligência artificial aumenta a importância do compliance tributário como ferramenta de gestão.
“A Reforma Tributária não elimina a necessidade de controle. Pelo contrário. Durante o período de transição, as empresas precisarão lidar com regras simultâneas, novos tributos e diferentes obrigações. Quanto maior a complexidade operacional, maior também a necessidade de garantir a qualidade das informações enviadas ao Fisco.”
Governança tributária deixa de ser diferencial e passa a ser necessidade
Diante desse novo contexto, auditorias preventivas, revisão periódica de processos fiscais e acompanhamento constante das obrigações ganham relevância estratégica para empresas de todos os portes.
Para Fantoni, organizações que enxergam a área tributária apenas como uma obrigação burocrática tendem a enfrentar dificuldades crescentes nos próximos anos.
“A inteligência artificial continuará ampliando a capacidade de fiscalização dos órgãos públicos. As empresas que investirem em governança tributária, revisão de processos e conformidade terão mais segurança jurídica e menor exposição a riscos. A gestão tributária deixou de ser apenas uma questão de cumprimento legal e passou a fazer parte da estratégia do negócio”, conclui.
Palavras-chaveA inteligência artificial continuará





