A um ano da eleição 2026, os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), de Goiás, Ronaldo Caiado (União), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), seguem como nomes ventilados para uma candidatura de direita à Presidência da República. No entanto, até o momento, nenhum deles tem o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro, maior liderança do campo político.
A reportagem consultou analistas e cientistas políticos para traçar um panorama sobre como essas candidaturas podem se desenvolver até o pleito, em outubro do próximo ano. Com Lula praticamente confirmado no páreo para disputar mais uma reeleição, os governadores miram o centro e o eleitorado bolsonarista para angariar apoio e viabilizar suas campanhas.
Jair Bolsonaro como candidato à Presidência na eleição 2026
Sem poder concorrer a cargos públicos e condenado a 27 anos de reclusão por tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro não representa uma candidatura viável atualmente. Ainda assim, caso queira, pode lançar seu nome em uma candidatura até que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) faça a avaliação da legalidade da chapa. Em 2018, o atual presidente Lula se manteve como candidato do PT até ser substituído por Fernando Haddad, cerca de um mês antes do pleito.
O doutor e pesquisador em ciência política da Universidade de Brasília (UnB), Robson Carvalho, considera impossível uma mudança no cenário de inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Tem um setor que fica alimentando o Bolsonaro ser candidato, que é uma estratégia ruim porque não reflete a realidade dos fatos. Bolsonaro está inelegível e esse quadro não vai se reverter. Ele mesmo parece estar consciente que este episódio é uma página virada”, afirmou Robson Carvalho.
Mesmo com uma mudança de cenário, o ex-presidente ainda enfrenta problemas de saúde. Há cerca de duas semanas, Bolsonaro esteve internado no hospital para tratar uma alteração na função renal e o quadro de anemia que aflige Bolsonaro. Na segunda-feira (29), o ex-presidente teve nova crise de soluços e vômitos. O professor e mestre em ciência política da Universidade Federal de Ouro Preto e do Ibmec Belo Horizonte Adriano Cerqueira também descarta a possibilidade de Bolsonaro se candidatar.
“Acho muito difícil Bolsonaro ser candidato, mesmo que ele consiga obter seus direitos políticos, porque não parece que está com saúde adequada para uma disputa desta. Mas é tudo suposição”, afirmou Cerqueira.
Jair Messias Bolsonaro está inelegível e não pode participar de eleição 2026 – Foto: Gustavo Moreno/STF
Se não é Bolsonaro, quem é o candidato da direita?
Com o ex-presidente fora do cenário, restam como prováveis candidatos os governadores citados. Mesmo fora da disputa, Jair Bolsonaro deve ter uma atuação importante como cabo eleitoral. O seu apoio é disputado pelos possíveis nomes na eleição 2026.
O doutor em ciência política pela USP e professor da Universidade Católica de Santos Alcindo Gonçalves avalia que a liderança de Bolsonaro será decisiva para as candidaturas dos governadores ao Planalto.
“Tudo vai depender do jogo de forças que se estabelecer a partir do bolsonarismo, do alinhamento maior ou menor desses candidatos com o presidente Bolsonaro”, avaliou Alcindo. “Até o momento nenhum dos governadores assumiu essa postura de certo distanciamento do bolsonarismo. Eles ainda tentam se aproximar do bolsonarismo para obter as bênçãos e, a partir daí, liderar suas campanhas.”
Desde 2018, a relação entre o bolsonarismo e a centro-direita do país apresentou momentos de turbulência. Durante a pandemia, o presidente Bolsonaro rompeu com o então governador de São Paulo, João Dória, com Eduardo Leite, e até mesmo com Ronaldo Caiado.
Eleição 2026: apoio de Jair Bolsonaro será fundamental para viabilizar candidatura de um dos governadores à Presidência da República – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Diversos ministros do seu governo, como Sergio Moro, da Segurança Pública, general Fernando Azevedo e Silva, da Defesa, Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral da Presidência da República, entre outros foram exonerados em situações que Jair Bolsonaro avaliou que teria faltado lealdade dos comandados.
Para a eleição 2026, aliados do ex-presidente criticaram as movimentações de partidos para escolher um candidato. Tanto os seus filhos senador, deputado e vereadores, quanto parlamentares como o senador Magno Malta manifestaram desagrado pela pressão do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, sobre uma candidatura de Tarcísio de Freitas. No evento de 20 anos do Republicanos, do qual Tarcísio é filiado, Jair Bolsonaro praticamente não foi citado e as pautas prioritárias se afastaram da agenda bolsonarista.
No entanto, na votação da anistia, poucas semanas depois, o Republicanos apoiou integralmente a urgência para o projeto de anistia aprovada na Câmara dos Deputados. Por sua vez, Tarcísio, que estava sendo pressionado pelo PL e pelo Republicanos para anunciar uma candidatura, afirmou recentemente que será candidato à reeleição para o governo de São Paulo, após visitar Jair Bolsonaro.
Pressão sobre partidos de centro contribuiu para a aprovação da urgência da anistia – Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Tarcísio era o nome de convergência
De acordo com os cientistas políticos consultados pela reportagem, o governador de São Paulo é quem reunia as melhores condições para conseguir maior apoio para uma campanha ao Palácio do Planalto. Mesmo com sua resistência em contrariar Jair Bolsonaro e afirmar que disputará novamente o Palácio dos Bandeirantes, os analistas consideram o cenário “turvo” a um ano da eleição 2026.
“O Tarcísio é um nome que consegue convergir os bolsonaristas e o centrão. Tarcísio me parece uma pessoa que tem a confiança de Jair Bolsonaro, ele sempre manifestou apoio a Bolsonaro, inclusive no discurso do dia 7 de setembro e, ao mesmo tempo, é visto como um candidato moderado”, afirmou Adriano Cerqueira.
Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que será candidato ao governo de SP na eleição 2026 – Foto: Paulo Guereta/Governo de SP
De acordo com Robson Carvalho, pesquisador da UnB, Tarcísio de Freitas avalia com cautela a disputa pela Presidência da República inclusive pelo cenário favorável que possui em seu estado, onde deve disputar a reeleição.
“Entre eles, o que teria mais perspectiva seria o governador de São Paulo”, comentou Robson Carvalho. “De fato, ele tem uma reeleição bem menos complicada do que apostar todas as fichas para tentar disputar a Presidência da República contra o Lula, que está no poder.”
Com Tarcísio momentaneamente fora do cenário, o professor Alcindo Gonçalves enxerga o governador do Paraná, Ratinho Jr. como o candidato com o maior potencial de crescimento a um ano da eleição 2026.
“A candidatura do Tarcísio que cresceu e desapareceu rapidamente é aquela que teria em princípio eleitoralmente maior densidade eleitoral, mas, entre os outros nomes, aquele que tem mais chance de crescer pelo seu perfil, por certo grau de moderação é o Ratinho Jr.”, avaliou Alcindo.
Governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), é um dos cotados para disputar a Presidência na eleição 2026 – Foto: Rodrigo Félix Leal/AEN
Zema e Caiado correm por fora
Os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema, e de Goiás, Ronaldo Caiado, são os que apresentam as menores chances de sucesso em uma disputa pela Presidência na eleição 2026, de acordo com os analistas consultados pelo ND Mais. Para Robson Carvalho, os votos de Jair Bolsonaro não são transferíveis automaticamente para candidatos apoiados pelo ex-presidente.
“Ronaldo Caiado eu enxergo com chance absolutamente nenhuma. Ele tem um perfil muito elitizado, ele não consegue sair do seu próprio estado”, avaliou Robson Carvalho.” O Romeu Zema tem um problema inclusive de discurso, de articulação das ideias e das palavras. Ainda tentando resgatar retóricas antigas que nem mesmo Bolsonaro, se fosse candidato, iria utilizar.”
Pesquisador vê governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), com poucas chances em eleição 2026 – Foto: Adriano Assis
Alcindo Gonçalves também vê em Zema e Caiado um desafio maior de viabilização de uma candidatura na eleição 2026 em relação ao governador do Paraná.
“O Ratinho Júnior parece aquele que tem menos rejeição, uma certa perspectiva de crescimento, embora seja pouco conhecido em nível nacional. O Zema e o Caiado ocupam um espaço, mas nenhum deles hoje tem uma expressividade maior”, afirmou Gonçalves.
Para onde vai o centro na eleição 226
Com mais uma disputa polarizada na eleição 2026, na visão dos analistas, o eleitor de centro, nem Lula nem Bolsonaro, deve ser o fiel da balança. Após conseguir eventual apoio do eleitor bolsonarista, os candidatos devem disputar os votos dos indecisos com o campo progressista.
“O que se pode notar é que a polarização está mantida, há uma guerra de rejeição que tentará atrair esse eleitor do meio”, avalia Alcindo Gonçalves. “A grande dúvida é até que ponto nós vamos ter uma disputa de extrema-direita, de bolsonarismo liderando e os governadores, seja ele qual for o escolhido, tendo que se alinhar às teses mais esdrúxulas, mais vigorosas do bolsonarismo. Ou se vamos ter uma direita mais moderada, uma direita mais republicana, uma direita que não é confundida com a extrema direita.”
Nesse cenário a um ano da eleição 2026, o cientista Robson Carvalho considera o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, como um nome possível para conquistar o eleitor de centro e de direita. No entanto, o analista alerta para as condições adversas de viabilização de sua candidatura à Presidência.
“Quem teria mais condições seria o candidato Tarcísio. O candidato mais leve seria Eduardo Leite, mas é quem tem hoje menos condições estruturais entre eles. Ele teria que arregimentar todos esses grupos, unificar a oposição e ter a mesma estrutura que Tarcísio teria. Ele vai ter tudo isso? Acho improvável”, considera Robson.
Em 2022, Leite tentou se lançar candidato à Presidência, mas entrou em rota de colisão com segmentos do próprio partido. Além de conseguir apoio interno da legenda, o governador do Rio Grande do Sul ainda precisaria buscar a confiança do eleitorado bolsonarista.
Eduardo Leite foi o único entre os citados a não comparecer nas manifestações a favor da anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. No encontro na casa do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, quando Tarcísio e demais criticaram o Parlamento por não pautarem a anistia e o impeachment do Ministro do STF Alexandre de Moraes, Leite também esteve ausente. Nesta semana, o governador do Rio Grande do Sul foi o único a comparecer à posse do Ministro Edson Fachin na Presidência da Suprema Corte.
Eduardo Leite poderia ser um candidato mais moderado na eleição 2026, avalia pesquisador – Foto: Gustavo Mansur/ Palácio Piratini
Vai ser cada um por si na eleição 2026?
A princípio, os governadores alegam que cada um pode manter sua própria candidatura e unificar o apoio em eventual segundo turno na eleição 2026. No entanto, Robson Carvalho entende que é mais provável que alguns candidatos podem se aliar para evitar abrir mão de um mandato. De acordo com o analista, quem conseguir resolver a “equação” do apoio do bolsonarismo e do centro político deve ganhar tração para sua própria candidatura.
“Tem um número de partidos que ficam só observando. Onde houver mais chance de alguém se eleger, ele embarca com aquele candidato. Uma candidatura própria de alguns deles, eu acho um risco. O próprio Gilberto Kassab, presidente do PSD, em um jogo de roleta, coloca uma pedra no preto e no vermelho, o que ganhar está bem”, avaliou Robson Carvalho sobre cenário da eleição 2026.
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