Quem vive em Santa Catarina notou, neste verão, que a presença de turistas argentinos em 2026 diminuiu, e os dados comprovam. O número de turistas do país vizinho no estado caiu 13% nos primeiros quinze dias de janeiro, mostrou uma pesquisa da Fecomércio-SC. Entretanto, não é só Santa Catarina que nota a mudança: segundo dados da Secretaria de Turismo da Argentina enviados a reportagem, entre 1º e 28 de janeiro de 2026, o número de argentinos que viajaram ao exterior foi 9,1% menor do que no mesmo período do ano passado.
Nesse total, o Brasil ainda continua sendo o principal destino dos argentinos. Cerca de 31,5% de todas as viagens ao exterior continuaram sendo rumo ao território brasileiro. No total, no mesmo período, 10,1% menos argentinos viajaram ao país este ano.
A jornalista brasileira Letícia Navarro, radicada na Argentina há 12 anos e moradora da capital Buenos Aires, define que a mudança é um “combo”: a situação econômica do país e a imagem do Brasil como destino turístico reforçam um clima de hesitação para as viagens ao litoral brasileiro e catarinense.
Por que os argentinos estão vindo menos ao Brasil e a SC?
Em primeira análise, a queda de viagens internacionais dos argentinos não é um fenômeno isolado em relação ao Brasil ou Santa Catarina, mas sim uma mudança geral de comportamento. Além do Brasil, outros destinos importantes tiveram baixas significativas, como o Chile, com -21%, e os Estados Unidos, com -11%.
Argentinos viajam mais para o interior do país
A Secretaria de Turismo da Argentina definiu o turismo nacional, no último período, com um “forte protagonismo”. A província de Córdoba, por exemplo, recebeu 2,4 milhões de visitantes em janeiro – 20% a mais que no ano anterior. Destinos de montanha e interior, como Neuquén (+8% de ocupação provincial) e cidades como Rosario (+19% em chegadas), mostraram crescimentos sólidos.
Aumento de viagens nacionais está relacionado com diminuição de turistas argentinos em SC
O programa “Elegí Argentina”, do governo do país, e a colaboração entre os setores público e privado foram eficazes em manter o turista dentro da Argentina, oferecendo melhores oportunidades em destinos locais
O mercado de aviação argentino, em consequência, fechou 2025 com recorde de passageiros, e em janeiro de 2026 houve um aumento de 9% no número de passageiros em voos nacionais em comparação a 2024. Isso sugere que uma parcela dos turistas que poderia viajar ao exterior, como para o Brasil, optou por voar para destinos dentro da própria Argentina.
Verão na Costa Atlântica
Muitos turistas que buscam sol e praia (perfil comum de quem vai ao Brasil) optaram pela Costa Atlântica Argentina, que teve ocupações de destaque em locais como Cariló (90%), Pinamar (85%) e Mar de las Pampas (acima de 90% na segunda quinzena).

Mar del Plata é outra opção de turistas argentinos de SC na terra natal
Apesar do crescimento, a jornalista Letícia define que os argentinos ainda preferem as praias brasileiras. “A qualidade e temperatura da água, a areia fina, a amabilidade dos brasileiros são fatores que fazem com que os argentinos escolham, quase sempre, ir ao Brasil do que a Mar del Plata, por exemplo”, explica. Ela define que Santa Catarina, Rio de Janeiro e regiões do Nordeste do país estão entre os principais destinos escolhidos pelos hermanos para curtir o verão.
A preferência, contudo, teve ressalvas. Só em Florianópolis, em janeiro, a presença dos argentinos caiu 38%. A Fecomércio-SC apontou que a valorização do dólar fez com que muitos argentinos recuassem do destino das férias de verão, mesmo que o Brasil seja um destino financeiramente mais viável. “Muitas das vezes, é mais fácil para um argentino viajar para o litoral catarinense do que o argentino”, exemplifica Letícia.
Valorização do real frente ao peso é uma das razões da diminuição de turistas argentinos em SC
A dificuldade econômica também mudou o perfil do argentino que vem ao Brasil. Letícia afirma que quem viaja para o exterior hoje são famílias com uma situação financeira mais confortável e, ultimamente, têm escolhido o Rio de Janeiro frente aos destinos catarinenses.
Uma pesquisa da Fecomércio de 2025 também indicou que aqueles que vêm ao Brasil apresentam um poder aquisitivo maior. Na prática, os argentinos estão viajando menos para fora, mas quem viaja, tem dinheiro.
Preocupação com golpes e viroses freiam turistas argentinos em SC
Essa mudança de hábito, contudo, não advém só do bolso dos argentinos. “A mídia argentina tem explorado muitíssimo a questão dos golpes que acontecem com os turistas argentinos”, explica a jornalista. A situação é recorrente: recentemente, por exemplo, uma argentina pagou R$ 20 mil via Pix em um milho de praia, no Rio de Janeiro.
Turista argentina cai no ‘golpe do milho’ e perde R$ 200 mil em praia do Rio; fraudes preocupam turistas argentinos em SC
O uso do Pix combinado com a dificuldade com o idioma e a conversão monetária influencia o medo de fraudes e estelionato em solo brasileiro, define Letícia. No último ano, a explosão de viroses também virou pauta. A imprensa argentina repercutiu a fala do prefeito Topázio Neto (PSD) sobre os casos nas praias da capital catarinense, em janeiro de 2025.
Canais argentinos de televisão repercutiram casos de virose no último verão, e preocupam turistas argentinos em SC
O jornal Clarín, por exemplo, argumentou que o prefeito “minimizou” a questão ao atribuir o surto aos alimentos comercializados nas praias. Já o C5N (Canal 5 Notícias) chegou a declarar que a água suja estava “intoxicando” os argentinos. A jornalista destaca, no entanto, que a preferência pelas praias catarinenses segue, apesar da polêmica.
A Prefeitura de Florianópolis declarou, sobre a situação, que “a cidade segue sendo um dos destinos preferidos de turistas argentinos”. Destacou ainda um aumento expressivo de turistas chilenos.
Sobre a diminuição de turistas argentinos, a prefeitura analisa que está relacionada, sobretudo, ao fator econômico. “Incluindo a valorização do dólar para os argentinos e outros eventos importantes no mesmo ano, como a Copa do Mundo”.
Um outro caso recente também expôs um receio frente às normas jurídicas brasileiras: a repercussão das falas racistas de Agostina Páez, que teve a prisão decretada após ser gravada chamando um garçom de “macaco” no Rio de Janeiro. “Eles estão bastante ressentidos com o fato da visibilidade e do rigor da lei no Brasil”, relata Letícia.
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