Mais de 230 empresas brasileiras já instalaram filiais ou transferiram suas linhas de produção para o Paraguai, atraídas por uma poderosa política de incentivos fiscais, facilidades alfandegárias e simplificação tributária. Entre elas, indústrias tradicionais que nasceram e cresceram em Santa Catarina. E contatos visando novos investimentos ou instalação de filiais multiplicam-se nos últimos meses em encontros comerciais e troca de informações. A tradicional Karsten, de Blumenau, com 143 anos de atuação, inaugurou recentemente uma fábrica de têxteis no Parque Logístico Gical, a 13 km de Ciudad del Este. A Hering, com 146 anos, também de Blumenau, tem unidade fabril e uma moderna loja ao lado de grifes internacionais no Shopping China, maior atração no outro lado do rio. E a Weiku, de Pomerode, que produz esquadrias e portas de PVC, também exporta a partir do Paraguai. Estas são as principais referências. Já o empresário Luciano Hang anunciou para ainda este mês que vai visitar o Paraguai e tem até uma audiência prevista com o presidente Santiago Peña e com ministros, para tratar de filiais da Havan, atraído pelo excepcional ambiente de negócios e segurança jurídica, econômica, política e monetária. O Paraguai tem uma única moeda, o Guarani, há 84 anos.
Paraguai tem altas taxas de crescimento
Dois fatos recentes revelaram detalhes do inédito fenômeno econômico registrado no Paraguai, com altas taxas de crescimento e despontando como o “tigre” do Cone Sul.
O primeiro, durante o Conexa 2026, promovido pela ACIF (Associação Comercial de Florianópolis), quando o vice-ministro da Indústria e Comércio do Paraguai, Javier Viveros, destacou o interesse do governo paraguaio de atrair novas empresas estaduais, em função da proximidade geográfica e da sinergia que existe com o Estado. Viveros mostrou as estatísticas impactantes que colocam o Paraguai como o melhor país da América do Sul para investir, trabalhar, produzir, importar e exportar. Vê forte sinergia entre seu país e Santa Catarina.
Javier Viveros, vice-ministro da Indústria e Comércio do Paraguai
O segundo foi ainda mais impressionante, com relatos sobre o volume assombroso de incentivos concedidos pelo governo, conforme testemunharam os mais de 1.500 corretores de imóveis reunidos em Convenção Nacional do Sistema Cofeci-Creci, no Hotel Recanto das Cataratas, em Foz do Iguaçu (PR). Ali, o ambicioso projeto de desenvolvimento do país foi apresentado pelo empresário Ernesto Figueredo, presidente da Raices Real Estate, a maior incorporadora imobiliária do Paraguai. Ele veraneia todos os anos com familiares e amigos em Jurerê Internacional.Nas duas apresentações, a evidência de que entre as inéditas medidas de apoio ao setor produtivo, uma das principais é a Lei 1.064/97, conhecida como “Lei Maquila”, um regime jurídico e tributário especial e ousado criado pelo governo para atrair investimentos estrangeiros e industrializar rapidamente o país.
Este inédito sistema permite que uma empresa estrangeira instale uma filial no Paraguai (ou contrate uma empresa paraguaia) para importar matérias-primas sem pagar impostos, industrializar ou montar o produto por lá utilizando mão de obra local, e depois exportá-lo.
Empresas brasileiras geram 35 mil empregos diretos
O Paraguai tem hoje mais de 350 indústrias operando pela Lei Maquila, sendo que sete em cada dez delas são brasileiras, gerando mais de 35 mil empregos diretos.
Em Ciudad del Este, no outro lado do rio Iguaçu, fala-se mais o português do que o espanhol. Na área de serviços, a presença de restaurantes e produtos brasileiros é ostensiva. Sobre a Ponte da Amizade, que une as duas cidades, passam centenas de camionetes e caminhões transportando cimento e produtos cerâmicos do Brasil.
O perfil das indústrias que se instalaram no Paraguai nos últimos anos inclui os setores têxtil e de confecções, autopeças e metalurgia, plásticos, calçados, alimentos processados, serviços e tecnologia. A operação dessas indústrias brasileiras no Paraguai pode reduzir os custos de produção em até 40%.
A primeira vantagem tem por base a Lei Maquila. As empresas pagam um tributo único de 1% sobre o valor agregado ou sobre a fatura de exportação na exportação. E gozam de isenção de impostos na importação de máquinas e insumos.
Os impostos são simplificados. Fora da Maquila, o Paraguai opera com a chamada “Fórmula 10-10-10”, cobrando 10% de IRE (Imposto de Renda Empresarial), 10% de IVA (Imposto sobre Valor Agregado) e 10% de IRP (Imposto de Renda Pessoal).
O baixo custo da energia elétrica é outro fator. Com sobra da energia de Itaipu e Yacyretá, o preço por MWh é de US$ 41, contra US$ 92 da Argentina e US$ 117 do Brasil.
Preço da energia elétrica em diferentes países
A quarta vantagem são os custos trabalhistas. O salário mínimo paraguaio é maior, mas os encargos sobre a folha são simples e menos onerosos.
Por último, logística e Mercosul. Os produtos paraguaios voltam ao Brasil com alíquota zero de imposto de importação, utilizando o certificado de origem do Mercosul.
Paraguai tem menor carga tributária
O fato histórico que impulsionou a economia paraguaia ocorreu a partir de 2004, com a chamada reforma do “Triplo 10”, marcado pela fixação de alíquota de 10% para três tributos: o Iracis (Imposto sobre as Empresas), que era de 30% antes da reforma, o IRP e o IVA. O resultado foi surpreendente, com arrecadação crescendo como nunca. Segundo o empresário Ernesto Figueredo, houve caso de imposto que registrou aumento da receita em sete vezes.

Ernesto Figueredo, presidente da Raices Real Estate, a maior incorporadora imobiliária do Paraguai
Outros fatos relevantes: não há imposto sobre o patrimônio e muito menos tributos sobre herança. A incidência tributária sobre rendas geradas fora do Paraguai é zero. E não há impostos sobre ganhos na Bolsa de Valores. Além disso, a garantia de investimentos estrangeiros dada pelo governo do Paraguai é de 20 anos.
Expansão imobiliária com avanços históricos
Com a instalação de novas indústrias, ampliação do comércio internacional e multiplicação dos serviços, a construção civil também registrou avanços históricos. De acordo com a exposição de Ernesto Figueredo, do Raices, a taxa de crescimento do mercado imobiliário foi de 38,4% em 2024, com uma rentabilidade anual nos aluguéis de 8%. Resultado: 12% do PIB paraguaio é do setor imobiliário.
Com mais de 21 anos atuando no Paraguai, o grupo Raices conta com 33 mil clientes, construiu 35 milhões de m2, idealizou e implantou 20 condomínios modernos e sustentáveis e está desenvolvendo outros 15 milhões de metros quadrados na criação de bairros modelos.Com mais de 400 colaboradores, o grupo é um dos gigantes no mercado imobiliário do Paraguai. Fundada por Don Jorge Figueredo, a empresa acumula liderança por mais de duas décadas. E entre seus projetos icônicos destaca-se o “Aqua”, conceito inovador de condôminos fechados com lagoas artificiais de águas cristalinas.
Invasões de terra são coibidas por lei rígida
Quando indagado sobre aspectos relacionados à segurança política e jurídica dos investidores estrangeiros no Paraguai, Ernesto Figueredo destacou um dos graves problemas existentes no Brasil, com invasões de terras produtivas. “Risco zero. A lei nacional estabelece que qualquer pessoa que toca no alambrado ou encosta na cerca será preso. É inapelável. Vai direto para a cadeia.”O Paraguai tem uma das legislações mais rígidas na América do Sul contra ocupação ilegal de propriedade. A segurança está na Lei n. 6.830/2021, conhecida como Lei Zavala-Riera, que definiu a invasão como crime de ação pública, com penas que começam com cinco anos de prisão.
Paraguai mudou imagem de falsificação de produtos
A imagem de um país que só vendia produtos falsificados, com imitações baratas ou contrabandeados, expandida no século passado pelo comércio bagunçado em Ciudad del Este, sofreu profunda modificação com o novo governo e o desenvolvimento acelerado.
Entre os oito shoppings centers existentes na cidade, vários zelam rigorosamente pela origem dos produtos e exercem fiscalização própria nas vendas. O mais moderno é o Shopping China, inaugurado em oito meses, com 94 mil m2, distribuídos em nove andares, dos quais três para estacionamento superior, um imenso para a praça de alimentação e três para lojas de grifes com comércio de múltiplos setores.
Ali, os eletrônicos, por exemplo, são testados obrigatoriamente na saída, com nota fiscal em mãos do consumidor, para garantir procedência. Televisores com 85 polegadas e Iphone 17 saem pela metade do preço cobrado no Brasil. O mesmo ocorre com os carros, 40% mais baratos.
Terrível é a travessia da Ponte da Amizade, com imensas filas de caminhões parados e congestionamentos longos na entrada e saída. A segunda ponte, inaugurada em 2025, até hoje depende da conclusão de obras de infraestrutura.
Palavras-chavede obras de infraestrutura.





