A quebra do banco digital Ueno levou centenas de paraguaios às ruas, praticamente paralisou as vendas em grandes varejistas do país e forçou o Congresso Nacional a tentar aprovar, às pressas, uma mudança na legislação para agilizar a devolução dos recursos bloqueados dos clientes.O banco tem 2,9 milhões de clientes, o equivalente a 40% da população do país, estimada em 7,1 milhões. E processa quase 3 milhões de transações por dia, ou dois terços dos pagamentos eletrônicos feitos por grandes redes de varejo. Além disso, cerca de 32 mil aposentados e pensionistas recebem seus benefícios pelo Ueno Bank e ficaram sem ter acesso aos valores da noite para do dia, após intervenção do Banco Central paraguaio nesta terça-feira. A intervenção desencadeou a renúncia do presidente do BC, Carlos Carvalho, e de mais dois diretores, Marco Aurelio González e Carmen Marín. Além disso, a crise já resultou em oito prisões. Dirigentes do banco digital e executivos de empresas ligadas ao Grupo Vázquez, que controla a instituição, foram detidos na noite de terça-feira.
O sistema bancário paraguaio tem um Fundo de Garantia, como no Brasil. Lá a cobertura é de até 75 salários mínimos, equivalentes a 228,3 milhões de guaranis (US$ 37.450 mil). Pelas regras, os depósitos são devolvidos em um prazo de até 15 dias, o que está deixando correntistas aflitos:
Estudante de enfermagem, Deisy Asva, de 20 anos, viu todas as suas economias ficarem retidas no Ueno e não sabe como vai fazer para pagar suas contas nos próximos dias. No sábado, precisa quitar a mensalidade da faculdade:
— Vou ter que pegar dinheiro emprestado com a minha família. Com tanta tecnologia disponível hoje, como pode levar 15 dias?
Nesta quarta-feira, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi às redes sociais publicar um vídeo em que buscou tranquilizar a população:
— O sistema financeiro é sólido e conta com instituições e mecanismos de proteção. Os responsáveis pelas irregularidades devem responder perante a Justiça e já estão fazendo isso.
Peña nomeou o experiente economista Raúl Vera Bogado para comandar o Banco Central, após o presidente anterior da autoridade monetária local, Carlos Carvallo, ter renunciado com a crise no Ueno.
Sexto maior banco do Paraguai em volume de depósitos, o Ueno cresceu apostando forte nos serviços digitais e na esteira do boom econômico do país. Desde que se tornou banco, em dezembro de 2023, a instituição acumulou mais de 2,9 milhões de clientes e depósitos de 17 trilhões de guaranis (US$ 2,8 bilhões), incluindo cerca de US$ 355 milhões da agência de Previdência Social IPS.
Em meio a uma onda de otimismo dos investidores após o Paraguai conquistar sua segunda nota de crédito de grau de investimento, o Ueno Bank captou US$ 350 milhões em março, em uma emissão recorde de títulos corporativos, e tinha o húngaro OTP Bank como acionista minoritário de sua holding.
A expansão acelerada pode estar no cerne da crise no banco, que agora é também investigado pelo Ministério Público do Paraguai.
Tumulto e confrontos com a polícia
Os protestos de correntistas que tiveram seu dinheiro retido ocorreram no centro de Assunção e em frente à residência oficial do presidente do Paraguai, Santiago Peña. Segundo o jornal paraguaio ABC Color, centenas de cidadãos revoltados iniciaram uma manifestação pacífica em frente ao Panteão Nacional dos Heróis, mas logo o protesto acabou em tumultos e confrontos quando um grupo de manifestantes tentou avançar em direção à sede do Congresso Nacional e foi contido pela Polícia Nacional.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/v/K/6JoABWTf6B4eWAdAt4Tg/116817979-ueno-bank-depositors-demonstrate-during-a-protest-following-the-intervention-of-the-bank-b.jpg)
Outro grupo se concentrou em frente à residência oficial de Mburuvicha Róga. Com cartazes nos quais se lia que “O Estado deve garantir 100% dos recursos”, os manifestantes fizeram críticas diretas ao chefe de Estado. Também exigiram a devolução do dinheiro do Instituto de Previdência Social (IPS) e dos fundos de aposentadoria que ficaram retidos na instituição financeira em processo de liquidação.
— Perdi todas as minhas economias de uma vida inteira, só tenho 8 mil guaranis (quase US$ 1). Todos deveriam ir para a prisão — disse à AFP, em lágrimas, Marcelino Vergara, de 68 anos, que participava de uma das manifestações na terça-feira.
Na segunda-feira, o Banco Central do Paraguai decidiu, por unanimidade, iniciar o chamado procedimento de resolução do Ueno Bank, depois de constatar que o banco estava subcapitalizado. Com isso, o acesso às contas e aos investimentos da instituição foram bloqueadas.
Crescimento rápido no governo Peña
O Ueno era a maior operadora de cartões de crédito do país, com quase 1,1 milhão de cartões emitidos até setembro, segundo dados do Banco Central.
Ele cresceu durante o mandato de Peña, levantando suspeitas de favorecimento. Os depósitos do governo no Ueno Bank — controlado pelo poderoso conglomerado paraguaio Grupo Vázquez — dispararam desde que Peña assumiu a Presidência, em 2023, alcançando aproximadamente 5 trilhões de guaranis (US$ 869 milhões), o equivalente a 29% dos depósitos do banco no final de junho.
Diante dessas relações estreitas, a crise respinga sobre o mundo político.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/4/e/IEBD3iQ52rSFRBUw1Aew/ueno-bank-afp-policiais.jpg)
Devolução do dinheiro
Após o anúncio da intervenção pelo BC paraguaio e o congelamento das contas, formaram-se longas filas de pessoas fora das agências do Banco Ueno, que tentavam retirar seu dinheiro. O Banco Central garantiu que havia depósitos congelados na entidade "receberá um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis", cerca de US$ 1.675 ou R$ 9.158.
Mas, diante do peso do banco e da repercussão popular, o Senado aprovou na própria terça-feira a antecipação de parte dessa devolução para um prazo de 24 horas e elevou o valor do adiantamento para 121 milhões (US$ 19,8 mil) de guaranis, o equivalente a 40 salários mínimos, sem prejuízo da cobertura total prevista. Estima-se que a grande maioria dos correntistas consiga recuperar a totalidade de seu dinheiro com esse valor.
O projeto do Senado foi analisado pela Câmara dos Deputados nesta quarta-feira, mas a Casa pediu revisão de parte do texto, pois nele constava que o dinheiro seria recebido pela mesma conta bloqueada, de acordo com a imprensa paraguaia. Com isso, a proposta retorna para nova apreciação dos senadores.
Palavras-chavepara nova apreciação dos senadores.





